Conheça a lendária bebida cercada de fantasias e histórias.
O absinto é um destilado botânico de altíssimo teor alcoólico de coloração tipicamente verde, que geralmente flutua entre 45% e 74%. Embora muitas pessoas o confundam com um licor, ele entra na categoria dos destilados secos aromatizados, já que não recebe adição de açúcar em sua receita.
A sua identidade é construída com base na chamada “Santíssima Trindade” das ervas, uma mistura tradicional de três ingredientes: a losna (cujo nome científico é Artemisia absinthium, de onde vem o nome da bebida), o anis e o funcho. Essa combinação cria um perfil de sabor intensamente herbáceo e anisado, com um toque levemente adocicado que se destaca instantaneamente no paladar.
Origens
A história desse verdadeiro elixir começou nas montanhas de Couvet, na Suíça, por volta de 1792, quando o médico francês Pierre Ordinaire criou a receita original utilizando a losna como um remédio fitoterápico para tratar males digestivos.
Pouco tempo depois, a fórmula foi comprada e levada para a França, onde se transformou de tônico medicinal em bebida alcoólica, tornando-se um verdadeiro fenômeno cultural.

No final do século XIX, o Absinto se tornou a bebida oficial da boemia parisiense. Escritores e pintores lendários como Vincent van Gogh, Pablo Picasso e Oscar Wilde sentavam-se nos cafés para buscar inspiração no copo, hábito que ficou conhecido como a “hora verde”.
A partir daí surgiram mitos sobre a bebida. O mais comum é que causava alucinações e loucura. Por causa disso, o Absinto acabou banido em quase toda a Europa no início do século XX, ressurgindo legalmente apenas nos anos 90.
O mito das alucinações
O grande mito de que o absinto causava alucinações, episódios de loucura e transformava pessoas em criminosos nasceu de uma combinação de pânico moral, forte pressão da indústria do vinho (que perdia mercado para o destilado) e estudos científicos falhos da época.
O bode expiatório dessa história foi a tujona, um componente químico natural presente nos óleos essenciais da losna. No século XIX, cientistas injetaram doses massivas e isoladas de tuiona em animais, provocando convulsões, e erroneamente associaram isso a alucinações nos humanos.
Entretanto, a ciência moderna já comprovou que o Absinto autêntico possui quantidades totalmente seguras de tuiona, incapazes de causar qualquer efeito psicodélico.

Na realidade, o verdadeiro culpado pela “loucura” e pelo comportamento extremo dos boêmios do passado era simplesmente beber demais, somado ao altíssimo teor alcoólico da bebida e à má qualidade do álcool barato e adulterado que circulava nos bares clandestinos daquela era.
Mas, essa lenda persiste até hoje e por isso o Absinto é chamado popularmente de “fada verde” por causa dos seus supostos efeitos mágicos.
Classificações
Inicialmente a bebida era classificada de três formas: Absinthe Suisse, cuja graduação alcoólica variava de 68-72% (o mais alcoólico); Demi-fine com 50-68%; e o Ordinaire que variava entre 45-50%. Nessa época, o termo “ordinário” passou a ser utilizado para designar algo de qualidade medíocre e inferior, uma vez que o Absinto Ordinário era um produto mais barato feito com ingredientes menos nobres.
Hoje, o absinto se divide em categorias conforme sua qualidade, pureza e estilo visual. O padrão mais nobre e tradicional é o Absinthe Supérieure, feito exclusivamente por destilação e com ingredientes naturais de altíssima qualidade. Logo abaixo estão os tipos Fine e Demi-Fine, que podem misturar o destilado com álcool neutro e açúcar, além do Ordinaire, a versão mais simples e econômica de entrada.
Em termos visuais e regionais, as prateleiras se dividem entre o clássico Verte (verde por infusão de ervas), o Blanche ou La Bleue (transparente e engarrafado direto do alambique, muito tradicional na Suíça) e o polêmico estilo Boêmio ou Tcheco, que costuma ter cores vibrantes, menos anis e um perfil bem mais amargo.
Como é feito
Para produzir o Absinto autêntico, o processo começa com a maceração da losna, do anis e do funcho em um álcool neutro de alta qualidade. Essa mistura passa por uma destilação em alambiques de cobre, resultando em um líquido completamente transparente conhecido como absinto blanche ou la bleue. Para ganhar a icônica coloração esmeralda e se transformar em um absinto verte, o destilado passa por uma segunda etapa de maceração rápida com outras ervas, como a hortelã e a erva-cidreira, que liberam clorofila e agregam camadas aromáticas mais complexas ao produto final.
A maioria dos países não tem uma definição legal do Absinto, consequentemente, os produtores estão livres para fabricar a bebida sem qualquer padrão legal de qualidade. Os produtores podem utilizar a destilação ou fazer uma mistura. A Suíça é o único país que possui uma definição legal do Absinto e a destilação é o único método permitido de produção.
Em 1999, a bebida chegou ao Brasil pelo empresário Lalo Zanini. Foi legalizada no mesmo ano, porém teve de adaptar-se à lei brasileira, com teor alcoólico máximo de 54°GL de acordo com a norma do Art. 12, inciso II do Decreto 6 871/2009, não podendo atingir a elevada graduação das versões comercializadas na Europa, onde podem superar 70% de álcool em sua composição.
Marcas de referência
Se você quer explorar o mercado em busca de boas garrafas para o seu bar, existem referências mundiais de grande respeito. A Pernod é a marca com maior peso histórico, já que foi a responsável por abrir a primeira grande destilaria comercial na França no século XIX. Outra gigante muito respeitada pelos bartenders do mundo todo é a La Fée, que trabalha com receitas tradicionais e artesanais fiéis aos padrões franceses do auge da Belle Époque.
Para quem busca experimentar versões contemporâneas ou rótulos importados de destaque, marcas como Hapsburg e Neto Costa também oferecem ótimas experiências sensoriais que vão do clássico ao moderno.
O ritual do Absinto
Beber absinto é vivenciar um verdadeiro ritual de época, essencial porque o seu alto teor alcoólico exige diluição. O método mais clássico e charmoso é o ritual francês: coloca-se uma dose da bebida em um copo próprio (geralmente em formato de tulipa ou balão), apoia-se uma colher perfurada de absinto sobre a borda com um cubo de açúcar em cima e, lentamente, goteja-se água estupendamente gelada sobre o açúcar. À medida que a água dissolve o açúcar e se mistura ao destilado, acontece o mágico “efeito louche”, uma reação química natural onde os óleos essenciais das ervas se separam do álcool, transformando o líquido verde brilhante em uma bebida leitosa e opaca. Essa preparação é ideal para ser desfrutada sem pressa em reuniões sociais noturnas, momentos de contemplação ou em um esquenta elegante com os amigos.

Mas, existe uma outra forma de fazer este ritual que é flambar o cubo de açúcar. Essa técnica é conhecida como ritual Boêmio ou Tcheco e causa grande impacto visual. Entretanto, o gosto da bebida muda radicalmente.
Coquetéis com Absinto
Na alta coquetelaria, a fada verde é tratada como um ingrediente potente, usado em pequenas doses para perfumar o copo. O exemplo mais famoso é o Sazerac, considerado um dos coquetéis mais antigos do mundo, onde o absinto é usado para enxaguar a parte interna do copo antes de receber a mistura de Cognac ou whisky de centeio com bitters.
Muitos coquetéis clássicos que fazem parte da lista da IBA (International Bartenders Association) como o Bees Kness, Monkey Gland e Tuxedo por exemplo, também possuem Absinto em suas composições.

